quarta-feira, 30 de junho de 2010

Leshy


Leshy é o espírito Senhor da Floresta, protetor de toda vida selvagem, dos animais às arvores e arbustos. São também chamados de Lesy, Lesny, Lechy, Lesovy, Lesovik, Leshak , Lesun ou Leszy. Esses nomes tiveram origem do eslavo comum, significam "ele da floresta". Uma lenda diz que ele é filho de um demônio com uma mulher. Outra diz que ele tem uma família: sua esposa Leshachikha (Leszachka), e suas crianças Leshanki (ou Leshonky).

Geralmente aparece como um camponês alto que utiliza sapatos em pés trocados que não tem sombra. É capaz de mudar seu tamanho, desde uma lâmina de erva a uma árvore muito alta. Tem cabelos, sobrancelhas e barba feitos a partir da grama vivente e das vinhas. Tem a pele pálida e azulada por causa de seu sangue azul, contrastando com seus brilhantes olhos verdes. É freqüentemente representado em companhia de lobos cinzentos e ursos. Costuma carregar um pedaço de madeira para expressar que é o mestre dos vegetais. No Dictionnaire Infernal, é descrito como um demônio humanóide de pele azul, cabelos e barba verde e dois grandes chifres que carrega um porrete e um chicote.

É um espírito pernicioso que gosta de seqüestrar jovens, imitando vozes humanas conhecidas ou se transformando em animais dóceis. Dá indicações erradas a quem entra na floresta, mas viajantes espertos se livram dele vestindo suas roupas de trás para frente. No caso de um Leshy começar a correr atrás de alguém, é preciso fazer algo contra a floresta (iniciar um incêndio, por exemplo) para que o espírito se preocupe com outra coisa e esqueça da perseguição. Sua terrivel risada pelas árvores é a constatação de que alguém se perdeu e provavelmente, morreu. Seu choro é ainda pior e determina alguma maldade com seus protegidos.

Se por um acaso, alguém acabar ajudando um Leshy, o espírito ensinará vários segredos mágicos das florestas. Agricultores e pastores vivem tentando agradá-los. Adeptos do cristianismo diziam que era preciso entregar ao Leshy um crucifixo para que uma comunhão de paz (ou seu banimento) fosse realizada.

São inúmeras as ligações com o mito do Curupira no folclore brasileiro. Camuflagens militares que envolvem fantasias florestais com óculos noturnos são chamadas de Leshy Suit.

domingo, 27 de junho de 2010

Ilmatar

Ilmatar, pintura de Robert Wilhelm Ekman (1808-1873)

Ilmatar ("espírito feminino da natureza") era a jovem do ar, a deusa que criou o mundo ao longo de milhares de anos. Dia a lenda que um dia uma pata selvagem pousou em seu joelho, fez um ninho e colocou sete ovos. Quando estes começaram a se abrir, o calor foi insuportável para a jovem que se mexeu e derrubou os ovos no mar. Eles foram se transformando em ilhas, continentes, no sol, na lua e nas estrelas.

Arte de Lisa Hunt
Em uma outra lenda, a pata teria colocado apenas um ovo. A parte de cima da casca tornou-se a abóbada celeste. As estrelas teriam se formado de pequenos pedaços da casca. Da gema, fez-se o sol e, da clara, fez-se a lua.

Mesmo mantendo seu status virginal, ficou grávida dos céus e dos oceanos e teve Väinämöinen - personagem central da mitologia finlandesa -, Lemminkäinen e Ilmarinen.

É também chamada de Luonnotar, "espírito feminino do ar". Raramente é retratada como homem, como um grande herói.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Bragi

Filho de Odin e Frigg (ou de Gunnlud), Bragi (Bragui ou Braggar) era escritor, poeta, protetor dos trovadores e deus da eloquência. Recebeu este dom quando seu pai talhou as antigas runas em sua língua. Ele agia, portanto, como porta-voz e mensageiro dos deuses. Sua outra função era receber os guerreiros mortos, recém-chegados aos salões de Valhalla, com poemas nos quais enaltecia seus atos de heroísmo.
Oferecia aos poetas, o hidromel da poesia (feito a partir do sangue de Kvasir), que os inspirava em suas criações e lhes dava o bragarmal, o dom da poesia. Em funerais de reis e chefes guerreiros, eram feitos brindes e juramentos solenes sobre uma taça de bebida chamada de bragarfull, "Taça de Bragi".

Bragi com harpa, de Carl Wahlbom (1810-1858)
Marido da deusa Idun, ficou a seu lado tocando harpa quando ela desmaiou aos pés de Yggdrasil, á árvore da vida. Só saiu de seu lado, quando ela se recuperou e trouxe a primavera novamente. Essa história acontece todo ano, e Bragi está sempre ao lado de Idun. Em uma passagem do Edda Prosaica (livro completo sobre a Mitologia Nórdica, escrito por Snorri Sturluson), Bragi é chamado de efeminado por Loki, e Idun, ao tentar acalmar os ânimos foi chamada de lasciva.

Apesar de casado com a deusa guardiã das maças da juventude, era descrito como um velho sábio com barba (branca, na maioria das vezes). Taças e harpas são associadas a ele, assim como todos os pássaros canoros.

Acredita-se que originalmente Bragi não seria um deus. Ele seria o poeta Bragi Boddason do século IX, que teria servido a inúmeros reis escandinavos e sido alçado à divindade por outros poetas de séculos seguintes graças a sua capacidade literária.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Íris

Íris, em cartaz de Guy Head
Íris era a personificação divina do arco-íris, filha do titã Thaumas e da ninfa oceânide Electra, irmã das horrendas harpias. O vento oeste Zéfiro seria seu consorte.

Muito prestativa, era uma das deusas que serviam os deuses no Olimpo e, às vezes, ajudava mortais em apuros. Era ela quem preparava o banho de Hera, quem lhe prestava serviços dia e noite, estando sempre à sua disposição.

Como o arco-íris parecia unir o céu e a terra, era considerada mensageira dos deuses e associada ao feminino de Hermes. Viajava com a velocidade do vento: podia ir de um canto do mundo a outro, ao fundo do mar ou às profundezas do mundo subterrâneo. Era a única capaz de trazer as águas do Rio Estige para os deuses se benzerem contra os malefícios. Sempre com um lado positivo, simbolizava também uma benção divina.

Íris e Eros aparecem para Morfeu
Costumava ser retratada com uma jovem virgem com asas de ouro vestida com uma longa túnica (branca quando servia os deuses, multicolorida quando saía para cumprir suas tarefas), que carregava um caduceu e um vaso dourado de água. Em sua cabeça, podia haver uma halo de luz. Poucas vezes aparecia com sandálias semelhantes às de Hermes.

Existe uma versão mitológica que coloca Eros como seu filho, e não de Afrodite. No Tarô, é representada pela Temperança.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Fukurokuju

Fukurokuju veio do budismo chinês para ser um dos Sete Deuses da Sorte do xintoísmo japonês. É o deus da sabedoria, vida longa e virilidade. Seu nome é composto pelos ideogramas fuku (prosperidade), roku (felicidade) e ju (vida longa).

Baseia-se no sábio chinês Lao Tzu, que mantinha arquivos para a corte imperial da dinastia Sung, e encarna a Estrela Polar do Sul. Ele era famoso por fazer milagres, especialmente no campo da longevidade e prosperidade, sendo capaz até de ressuscitar mortos. Durante sua encarnação humana, era considerado um sennin, um filósofo capaz de viver sem comida, que adorava xadrez. Pode ser também a unificação das Três Estrelas Chinesas, Fu Lu Shou.

É representado como um velho calvo com uma alongada cabeça, corpo mirrado (cabeça e corpo teriam o mesmo tamanho) e uma longa barba branca, significando a grande sabedoria passada de gerações para gerações. Carrega um bastão com um hebi (pergaminho mágico com toda a sabedoria do mundo) amarrado em uma mão e um ogi (leque cerimonial). Se aparecer com um tokkuri (cabaça para saquê), significa que está sendo confundido com outro deus da sorte, Jurojin, uma vez que suas representações são extremamente semelhantes. Anda acompanhado de um grou, um cervo ou uma tartaruga, símbolos de longevidade.

Dizem que quem ganha uma estatueta ou pintura de Fukurokuju se torna popular e tem uma vida longa. Passar a mão na sua pontuda cabeça melhora a inteligência.


OBS.: Os outros deuses da sorte são: Benten, Bishamon, Daikoku, Ebisu, Hotei e Jurojin.

terça-feira, 15 de junho de 2010

K'uei Hsing

Deus dos exames e da burocracia, K'uei Hsing (Kui Xing) foi muito popular nos tempos imperiais, quando os exames eram um requisito importante para um bom emprego no poderoso funcionalismo público chinês. Era auxiliar do deus da literatura, Wen Chang, junto com Chu Yi.

As lendas dizem que o professor Chung K'uei passou com excelência em seus exames de qualificação, mas teve suas honras (uma rosa dourada) e direitos negados pelo imperador quando este viu sua feiúra. Deprimido, tentou se suicidar, atirando-se ao mar, mas acabou sendo salvo por um animal marinho (tartaruga ou peixe).

Um outra lenda, diz que seu talento era equivalente a sua feiúra. Pensando em seus estudos constantemente, distraiu-se e caiu de um penhasco, mas foi salvo por um dragão e recebeu o título de Ministro da Negociação Literária.

Em geral, aparece como um homem baixo e feio (muitas vezes, um anão corcunda), equilibrando-se em um pé sobre a cabeça de uma criatura marinha. Segura uma caneta tinteiro (para sublinhar os nomes dos bem sucedidos) e um alqueire (para medir o talento dos competidores). Dizem que também carrega o selo oficial do Imperador de Jade, Yu Ti.

É referenciado como uma estrela da constelação de Ursa Maior e, por isso, seu nome significaria "chefe estelar". Hoje, dizem que seria a divindade responsável pelas máquinas de fax e pelos e-mails.

Imagens de K'uei Hsing

sábado, 12 de junho de 2010

Ushas

Deusa da alvorada, filha do céu e irmã da noite, Ushas era adorada como o elo entre o céu e a Terra. A jovem e bela deusa renascia a cada manhã (e, por isso, muitas vezes era tratada no plural, as alvoradas), quando atravessava o céu em sua carruagem de ouro puxada por sete vacas (que representariam os sete dias da semana) e vestida com um robe laranja avermelhado e um véu amarelo-açafrão.

Ushas também é descrita como "o meio do despertar", ou seja, através dela, deuses evoluiam em seus caminhos para iluminação plena. Essa descrição pode ser pelo fato da alvorada anteceder a chegada do Sol, da luz para o mundo após a escuridão. Chegava a ser o sopro da vida para os Vedas. Também é representada por sete pombas brancas que afastam os maus espíritos. Seus dedos seriam serpentes em tons róseo-dourados que simbolizavam grande sabedoria e seus raios de luz.

Eos (grego) e Aurora (romana) são suas representações em outras mitologias.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Tefnut

A generosa Tefnut (ou Tefnet, que deve vir de tef, "cuspida" ou "úmida") era a deusa da umidade e das nuvens, podendo estar ligada às chuvas e à fertilidade da terra. Também está relacionada às noites úmidas e à névoa. Foi irmã e esposa de Shu, mãe de Geb e Nut, avó de Osíris, Ísis, Seth e outros. Juntos, Tefnut e Shu tornaram-se o primeiro casal divino, os olhos do deus-sol: enquanto seu irmão afastava a fome, ela afastava a sede.

Existem três lendas sobre sua criação. Na mais comum, ela foi criada a partir da saliva de . Em outra, Rá teria espirrado: o ar era Shu e a umidade era Tefnut. E uma terceira lenda ainda diz que Rá se masturbou e seu sémen deu forma a Tefnut e de sua respiração ofegante surgiu Shu.

Certa vez, com raiva de Rá, Tefnut fugiu para Núbia, abandonando o Egito à seca e findando o Antigo reinado dos faraós. Como leoa, iniciou uma matança. O deus Thoth foi convocado a trazer a deusa de volta para restaurar o brilho do Egito.

Tefnut era retratada de muitas formas, inclusive como mulher com cabeça de leoa, usando uma coroa solar com a serpente uraeus e um ankh (sinais de grande poder), ou uma leoa completa. Raramente aparece somente como uma mulher. É associada ao advento da monarquia, sendo por isso representada como uma serpente a surgir do cetro do faraó. Conta-se também que ela teria construído um lago para o faraó, para que ele lavasse os pés. Nefertiti se dizia encarnação de Tefnut.

Heliópolis foi o centro de seu culto, onde era considerada uma enneade, ou seja, uma das nove divindades originais da criação.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Zu

Tábua com imagem de Zu
Zu era o pássaro das tempestades e a personificação do vento do sul que trazia nuvens carregadas de trovão. Aparecia tanto como pássaro quanto como homem alado com poderosas garras (possivelmente de leão, como um grifo
Certa vez, roubou as Tábuas do Destino e a coroa de poder de Enlil, tornando-se o dirigente do mundo. O poderoso An exigiu que os deuses recuperasse as tábuas. Algumas lendas dizem que todas as divindades temiam o pássaro (considerado um demônio) e somente Marduk conseguiu mata-lo. Outros dizem que o indignado deus da guerra Ninurta aproveitou as nuvens carregadas de Zu para atirar flechas contra ele. Já caído, Zu teve suas asas rasgadas e Ninurta ainda o decapitou, devolvendo, em seguida, as tábuas a Enlil. Por fim, Zu foi levado a julgamento diante do supremo Ea.

Gravura de Ninurta contra o pássaro Zu

Sua versão babilônica - com grandes semelhanças mitológicas - era Anzu. O nome Zeus pode ter derivado deste nome, lembrando que uma águia é o animal sagrado a esse deus grego.

Estudos indicam que Zu poderia ser também um dos demônios Pazuzu dos ventos. Pra quem não está reconhecendo este nome, Pazuzu é o demônio que aparece nos filmes do Exorcista.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Ungambikulas do Tempo do Sonho

Espíritos do Tempo do Sonho, pintura acrílica de Collen Wallace Nungari

A mitologia dos aborígenes australianos gira em torno do Tempo do Sonho. No início, a Terra era plana e escura. Não havia vida ou morte, sol, lua ou estrelas. Todos dormiam embaixo da Terra, junto aos ancestrais eternos. Um dia, o sol se levantou e todos os outros acordaram de sua eternidade para viajar por todo território, fazendo rios e planícies, andando como homens, animais, plantas ou seres híbridos, espalhando guruwari, a semente da vida.

Dois deles - os Ungambikulas, que haviam se criado a partir do nada - começaram a enxergar pessoas parcialmente criadas pelos ancestrais, que jaziam disformes, inacabadas, semitransformadas, híbridas de animais ou plantas. Então, com suas facas de pedra, a dupla começou a esculpir cabeça, corpo e membros terminando a obra. Por essa razão, acredita-se que todo ser humano possui um totem ou animal ou vegetal de onde foi esculpido.

Tudo finalizado, todos os ancestrais voltaram ao Tempo do Sonho. Alguns se transformaram em rochas e árvores para marcar o caminho sagrado que eles uma vez fizeram. O Tempo do Sonho não é só um período da história passada. Ele está sempre presente, manifestando-se em rituais sagrados. Sacerdotes tornam-se ancestrais nessas cerimônias para contar essas viagens pelo território australiano.