sexta-feira, 16 de julho de 2010

Anhangá

Rios e matas, / passarela da ilusão, / muitas são as máscaras / do desfile de assombração.
Caçador, muito cuidado / com o que irás caçar, / se for branco, o veado, / é melhor não atirar.
Se de olhos afogueados / nem lhe deite um olhar, / pois é alma do outro lado, / é o encantado Anhangá.
Se quiseres boa caça, / faz à ela um agrado: / na ponta de uma vara, / deixa um pouco de tabaco, / os fósforos e a mortalha, / para que faça seu cigarro.
Anhangá quando fuma, / deixa de assoviar, / caçador vai à caça, / foi o trato com Anhangá. / Anhangá, Anhangá, Anhangá!

Anhangá é dito como protetor dos animais e, por isso, tornou-se deus da caça de tribos indígenas amazônicas. Costuma perseguir quem mata filhotes ou fêmeas que estão amamentando. Aqueles que praticam caça destrutiva também são vítimas dele. Com um pouco de tabaco, era possível negociar com ele.

Pode assumir nomes diferentes de acordo com a forma física que se corporifica: humano (Mira-anhangá), tatu (Tatu-anhangá), boi (Tapira-anhangá) ou peixe (Pirarucu-anhangá). Mas sua forma mais comum era a de um veado branco (Suaçú-anhangá) com enorme galhada, uma cruz na testa e olhos flamejantes que enlouqueciam. Sua presença pode ser detectada por um assobio e depois disso, o animal que estava sendo caçado, simplesmente desaparece. Em noites de lua cheia, o luar iluminava o pêlo alvo do Anhangá e seria possível vê-lo.

Nas cartas dos padres José de Anchieta, Manuel da Nóbrega e Fernão Cardim, o Anhangá seria supostamente uma alma errante ou espírito malfazejo que vaga pelas florestas e campos, muito temido pelos índios. Porém, seu nome significa basicamente "alma antiga". Os jesuítas traduziram seu nome como "diabo velho" ou "coisa ruim" e, por essa razão, transformaram-no em demônio da teologia cristã. A palavra "alma" para os índios era semelhante a "vida", portanto, um Anhangá era um um ser com sabedoria e poder além humano. Há uma confusão também com Anhanguera ("fantasma", em guarani) e Jurupari, que seria a própria corporificação do medo informe, do pavor do desconhecido e do mistério da noite.

Um comentário:

  1. Na obra clássica "Contribuição Indígena ao Brasil - lendas e tradições, usos e costumes, fauna e flora, vocabulário", do Irmão Marista José Gregório, numa edição de 1980, verifiquei que quer entre os primeiros cronistas da Terra Brasiliis como Jean de Lèry, Hans Staden e Fernão Cardim (citado acima), quer na literatura brasileira, o nome Anhangá está ligado à alma errante, gênio da floresta, assombração, fantasma, diabo, demônio.
    Só como exemplo:
    "Este gentio...tem grande medo do demônio, ao qual chamam...Anhanga" - Fernão Cardim.
    "O poder de Anhanga cresce com a noite: solta de noite o mau, seus maus ministros...". - Gonçalves Dias em "os Timbiras", Canto II

    Curiosamente, quando Anhanga está associado ao "veado branco com olhos de fogo", a referência já é outra:
    "Era Anhanga entre os selvagens, o deus da caça, o protetor dos animais contra as pilhagens e as vexações do caçador". Visconde de Ouro Preto (Afonso Celso)

    É claro que tudo isso está sendo considerado no universo do tronco linguístico Tupi-Guarani. Desconheço se Anhanga existe nos outros troncos linguísticos dos grupos indígenas.
    Foi muito instigante pesquisar um pouco sobre a mitologia brasileira.

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